12 de
maio de 1687
Imagine um mundo onde a vis insita é uma ação inata da mente
humana. De duas uma: ou vive-se em uma sociedade que possui o poderio de
resistência a possibilidades de mudanças ou vive-se em uma sociedade conformada
com suas tradições e dogmas de alienação.
Neste mundo, a estrutura hierárquica,
comandada pelas esferas políticas estabelecidas, é conhecida
por todas as pessoas desde o momento em que nascem. Todos crescem, envelhecem e
morrem sem verificar quaisquer mudanças sociais, pois tudo o que é sempre foi e
será do mesmo jeito. Dessa forma, crianças são reprodutoras das funções sociais
dos pais, não podendo de modo algum voar em alturas mais elevadas do que seus antepassados,
e o sonho de ascender socialmente inexiste dentro da alma humana. Todos nascem
destinados à sua sorte ou angústia de ser do jeito que já se foi e que
continuará a ser.
O direito de escolha é uma teoria da
loucura humana e o livre arbítrio instituído por Deus ao homem não é descrito
nas páginas do livro sagrado. Neste mundo marcado por castas e carmas as únicas
opções do homem são não possuí-las, e dizer sim ou não está associado à eternidade
de eventos que dispõem da mesma resposta dada anteriormente. Perguntas, dúvidas
e hipóteses são palavras com significados ausentes na mente humana e a ciência não
é uma verdade que se transforma, mas sim um conhecimento inquestionável
instituído pela tradição que não teve início e nem terá fim.
Pensar e refletir neste mundo, mais do que um ato de loucura é um ato de
fé e esperança de que as coisas podem deixar de ser da forma que são. As
pessoas loucas deste mundo privam-se da dádiva de tornarem-se pais, para não
deixar que sua descendência seja reprodutora de um modelo social que as fazem
sofrer, e com fé acreditam que o ciclo reprodutivo se rompa em um futuro que
jamais chegarão a conhecer.
Neste mundo, revoluções são inexistentes e a sociedade atua como uma
resistência aos desejos secretos dos loucos homens que clamam por alterações, e
como um impulso na medida que reprime a loucura humana com imposições
ditatoriais, faz-lhes refletir se é conveniente pensar, e consequentemente existir.

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